Conceituação das Cantigas

Consistem numa brincadeira cantada e dançada em roda, preferencialmente de mãos dadas. Sua coreografia vai mudando de acordo coma intenção da letra: “Carneirinho, Carneirão / olhai pro céu olhai pro chão / manda el Rei nosso Senhor para todos se ajoelharem” – As crianças olham pro céu, fazem reverência, se ajoelham, formam-se os pares.

“Você gosta de mim? / Oh Maria, eu também de você / Oh Maria, vou pedir ao seu pai / para casar com você” – Dão-se os braços, colocam-se as mãos na cintura e pulam mudando os pés. “Oh bota aqui, Oh bota ali os seu pezinho!” Assim é a cantiga de roda.

“A reunião de jogos e brinquedos infantis num ensaio de confronto seria tarefa maravilhosa de beleza e de utilidade. Beleza de trabalho humano e sensível, uma viagem na alegria infantil, durando século” – Luiz Câmara Cascudo.

Ester Pedreira de Cerqueira, colecionadora do folclore infantil, diz: “O meu objetivo é perpetuar o que ouvi da minha mãe, que ouviu da sua, da ama que me criou, filha de escravos. Que essa maneira de brincar que distraiu tantas gerações e que hoje nos parece velha e enfadonha chegue até as novas gerações interessante e bela como fora para a nossa meninice. Quero que chegue ao futuro os ecos da minha infância”.

As Cantigas como Estratégia Didática

A Cantiga de roda, ou rondas, apresenta-se como uma brincadeira completa. Brincada em roda, possuidora de uma coreografia própria, ela configura-se como uma estratégia didática de alto impacto, pois brincando de roda a criança exercita o raciocínio, a memória, desenvolve sua sensibilidade musical, aprende a respeitar regras, exercita sua criatividade, desenvolve sua socialização, incentiva o respeito à escolha democrática. Caracteriza-se por ser de baixíssimo custo, pois está a disposição de todos, através da memória da brincadeira brasileira.

Formação do Nosso Cancioneiro Infantil

Sabe-se que o nosso cancioneiro infantil se formou a partir de influências de várias culturas, principalmente ameríndias, lusitanas, africanas, espanholas e francesas. Muito pouco de essencialmente brasileiro existe nessa manifestação folclórica, portanto fica quase impossível afirmarmos e identificarmos onde começa e onde termina cada uma delas.

Música Indígena

A música indígena está intimamente ligada à dança e tem como principal característica a reprodução dos sons da natureza. O canto dos pássaros, o ruído do tambor, o grunido dos animais, a melodia dos ventos, sob o ritmo dos tamboris, dos maracas e dos flautins. A música indígena é executada em grupos, livre para a improvisação, utilizando flautas de bambus ou ossos, maracás de cabaças e carcaças de animais.

Música Portuguesa

O que mais incorporamos a nossa música de lusitano foram os textos das canções, sejam acalantos, rodas quadrinhas ou versos. O Maestro Heitor Villa Lobos relaciona nosso cancioneiro à música europeia do século XVI. Suspeita-se que essas brincadeiras não tenham chegado ao Brasil em forma de roda, mas em forma de pequeno minueto. Elas são atribuídas à influência francesa das preceptoras das famílias brasileiras e das primeiras ordens religiosas, que chegaram ao Brasil por volta de 1780 para ilustrar meninos e educar meninas. Essas brincadeiras cantadas apresentavam corruptelas do francês como “Giroflê, Giroflá, domine, demarré, deci”. Essas brincadeiras são brincadas em filas que se encontram no meio e fazem reverência. Em geral, essas brincadeiras são organizadas e têm roteiro a seguir. Exemplo: “Se encontrasse com o rei, eu faria continência”.

Música Africana

“O negro inseriu na nossa brincadeira seu jogo de corpo e sua malemolência”, afirma Veríssimo de Melo. No entanto, pouco se sabe das brincadeiras africanas e atribui-se essa omissão ao fato da inserção do negro no Brasil colonial se dar pelo trabalho. A marca da brincadeira africana viva até hoje no nosso folclore aparece nas canções de trabalho, nos sambas da vadiagem, nas chulas e lundus, que falam do cotidiano negro. Identificamos sua contribuição a paixão pelo ritmo, o figo de corpo, a prioridade de uma brincadeira livre de uma música coletiva, de uma dança empolgante enriquecida pelos variados instrumentos percussivos e pelas palmas, rebolados e sapateados. A brincadeira brasileira herdou dos índios a forma livre e prazerosas de brincara em rodas, a música lusitana do século XVI e a malemolência e os ritmos africanos.

Brincadeiras Cantadas

No quadro “Jogos infantis”, o pintor flamengo Pieter Brüegel (1525-1569) retrata cerca de 280 personagens participando de 84 brincadeiras, grande parte delas conhecidas e praticadas até hoje, como é o caso da Maria Cadeira, da Cabra Cega, e do Pião. As brincadeiras são universais, fazem parte da construção cultural coletiva da humanidade, bem como a cultura popular , que no Brasil se constituiu no século XVII.

Os Índios brincavam dançando anu e tatu, competiam no cabo de guerra e nas corridas de obstáculos. Os brinquedos deles eram piões de cabaças, bate-bate de sementes, petecas de penas de pássaros, bonecas de folha de milho e de argila, pequenos arcos e a brincadeira reproduz a vida, uirapuru, o curupira, a Yara etc.

Os portugueses trouxeram na sua bagagem bonecas, piões, soldadinhos e também monstros gigantes, que até hoje permanecem presentes nos contos de fadas e nas cantigas de ninar. Tinham como mito a coca, a cuca, o boi da cara preta, a cabra cabriola, ou bicho papão, as bruxas. Suas danças eram sapateadas e imitavam as quadrilhas dos nobres salões. Como exemplo, a chimarrita, as rodas e as quadrilhas.

Os africanos trouxeram seus mitos infantis como o tutú marambá (espírito da floresta), quibumgo (o lobo) e a nironga (o sapo), a mula sem cabeça e o lobisomem, além de danças sapateadas de umbigada e brinquedos construídos de cipós e frutas, o maculelê, os sambas e a picula.

Tudo isso se misturou e pouco a pouco foi formando a cultura da brincadeira brasileira. Como João Ribeiro escreveu no seu livro de FolK-Lore (1919), “as brincadeiras infantis são mensagens e recados de povo a povo, de século a século, sem sair da perene onda infantil que os leva a ignorados destinos.” A brincadeira reproduz a vida cotidiana e a sociedade em que estamos inseridos, reproduz o poder, a dominação, a violência, as habilidades, gerando as lideranças e as hegemonias.

Canções Cumulativas

Acumula conhecimentos, investe na rapidez de raciocínio, incentiva a memória e desperta uma competição sadia.

Canções Seriadas

Apresenta em série os conhecimentos. Exemplo: número, dias da semana, profissões etc. Entretanto, a brincadeira e o encontro de crianças de outrora e de hoje, embora reproduzam um sistema, muito têm de terno e sonhador. O fato é que brincando, cantando, de mãos dadas e trocando saberes, elas aprendem viver.

Cantigas de Verso

Tirar versos é um costume muito antigo. Veio para o Brasil trazido pelos portugueses. Segundo Ester Pedreira de Cerqueira “retratam a forma de pensar, criticar, satirizar, descrevem a vida, os costumes e a época de um povo”. Era costume as famílias, quando não havia televisão, cantar versos como entretenimento. Um brinquedo familiar que estreitava os laços entre as pessoas, desenvolvia a capacidade de rimar e a criatividade. Da mania de versejar vêm os desafios muito conhecidos no Nordeste como “Repente”. É a poesia popular.

Cançonetas

São canções graciosas e meigas, alegres, inocentes e infantis. Em geral ensinam movimentos, sons e palavras. Fazem parte do brincar íntimo entre o bebê e sua mãe, avó, titia ou babá. Instigam, provocam e, em geral, divertem muito.

Cantigas de Ninar ou Acalantos

Acalantos são canções para adormecer crianças. Segundo Renato Almeida, em História da música Brasileira, “acalanto é palavra erudita, designando o ato de embalar. No seu sentido musical equivale, por exemplo ao da palavra francesa berceuse, e da inglesa lullaby. Foi utilizada pela primeira vez pelo compositor brasileiro Luciano Gallet. Almeida afirma ainda: “O acalanto, canção ingênua , sobre uma melodia muito simples, com que as mães ninam seus filhos, é a forma mais rudimentar de canto, não raro com a letra onomatopaica, de forma que favoreça a necessária monotonia que leva a criança a dormir”. As canções de ninar existem em todas as culturas, em todos os tempos e lugares, e são sempre cheias de ternura, povoadas de sonhos, mitos e espectros de terror que as crianças devem afugentar dormindo no lugar mais seguro do mundo, o colo da mamãe. Dos sentimentos que expressa, o mais forte é o da preservação da espécie: “A mamãe vela o seu neném” e o mundo para... Essas canções reverenciam a mais pura intimidade que se expressa em sílabas, permeado de encantamento e carinho.

Sambas de Roda

Originário do batuque angola- conguense, o samba de roda é dançado em roda de maneira livre, com muitas palmas, rebolados e sapateados, usando a umbigada para escolher o próximo dançarino que vai ao centro da roda. Muito presente no recôncavo baiano, é chamado também de cantiga da vadiagem, pois era a forma mais usada pelos escravos para seus festejos e hora de lazer.

Parlendas

São ditos ou rimas sem música, destinadas a ensinar, divertir ou satirizar. A parlenda constitui um aspecto inteiramente distinto, não é confundindo com nenhuma outra manifestação folclórica. Luiz Câmara Cascudo divide as parlendas em Brincos ou Lenga-Lengas (são as parlendas para os bebês de 0 a 3 anos), Mneumônias (as parlendas que têm a finalidade de ensinar alguma coisa) e Parlendas propriamente ditas (criticam e satirizam fatos e situações).

Você Sabia?

Por Nairzinha

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