Profa. Mary del Priore

Historiadora e sócia titular do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro

O Reencantamento do Mundo

Cantigas de roda são conhecidas de todos nós. Porém, poucos sabem de seu valor histórico, cultural e social. Mestre Gilberto Freyre já as notara. Fonte de trocas e cumplicidade na voz de adultos e crianças, tesouro de nosso patrimônio histórico, lufada de frescor e espontaneidade, elas invadem a infância, ontem e hoje. Gravadas na memória, dançando na ponta da língua, canções de roda não nos abandonam, nunca. Quantas vezes nos perguntamos “ainda me lembro?!”. Mas elas estão lá, sempre prontas a reaparecer, a renascer. Como diz o poeta, são de todos e são de ninguém.

Entre elas, um ponto em comum: tentam transmitir às crianças os valores da vida e têm uma função importante em seu desenvolvimento psicológico: distinguir o Bem do Mal. Ultrapassar seus medos e inseguranças. Expressar seus sentimentos.  Por meio de letras e sons, as crianças encontram ternura, calma, prazer. Na roda, mãos dadas, em coro, as crianças quebram as barreiras de classe, as desigualdades sociais. Fiéis às tradições, as cantigas oferecem em retorno, uma sólida base cultural. Vindas da noite dos tempos, elas reforçam um passado comum, nossas tradições e folclore. Quando alguém canta, elas ensinam o respeito do outro. É preciso ouvir sua voz, dar-lhe atenção, seguir a história. Quando todos cantam, exercita-se a solidariedade, a união, e a alegria de estar junto. Momento de dádiva e de compartilhamento, a cantiga de roda é uma maneira de se inventar e de se comunicar. 

Brincar, hoje ou ontem, sempre incluiu cantar cantigas de roda. Já conhecidas dos indígenas, os portugueses e africanos trouxeram as suas também, misturando sons e letras. Muitas delas eram e são dançadas. O giro é sempre no sentido solar para os petizes adquirir forças e expelir males. Houve deformação das palavras pela própria graça com que são cantadas por bocas infantis. Todas elas, vivas na memória, quando as escutamos interpretadas por nossos filhos e netos. No passado, ao canto se somavam outras brincadeiras: o de correr argolinhas, - trazida de Portugal -, o jogo do beliscão, o de virar bundacanastra, o jogo da peia-queimada, além de ritmos, cantos mímicas feitas de trechos declamados. Piões, papagaios de papel e animais ou gente reduzidos, confeccionados em pano, madeira ou barro, eram os mais populares.

Por influência das representações cênicas populares, presentes desde que o teatro faz sua aparição no Brasil colonial graças aos padres jesuítas, não faltavam encenações musicais. Coreografias representativas de lendas e mitos, fantoches, circo de cavalinhos, representações de ciganos atraíam crianças que, em casa, reproduziam as mesmas manifestações. Um lençol no escuro, bonecos e uma vela ou um palco doméstico com farta distribuição de papéis entre os pequenos de uma grande família era o que bastava para divertir. Cantos, sempre o pano de fundo preferido. Acalantos fizeram dormir nossos antepassados. Os de origem tupi, por exemplo, de extrema doçura, chamados de “acutipuru” embalaram o sono de muitos curumins. As rondas, de origem européia, incluíam mímicas e adivinhação. E os akpalô, africanos, ensinaram às crianças estórias em ritmo musical sobre animais falantes.

Como a fada com sua varinha mágica, Nairzinha recupera um mundo de cantigas nos põem na roda e nos faz cantar. Como a fada ela nos transforma em seres imaginários, plantas, bichos, princesas, heróis e bandidos. Ela nos faz viajar no tempo e no espaço. Ela reencanta um mundo desencantado. Ela renova o fio de estórias que se entrelaçam e se revigoram. O mais importante é que ela nos faz, adultos ou crianças, melhores cidadãos. Cidadãos mais afinados com nosso país, com nossa cultura e com nós mesmos.

Muito obrigada, Nairzinha...

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