Prof. João Amado

Professor da Universidade de Coimbra

Quintal… Saudades ou Utopia?

Eis uma pequena enciclopédia do imaginário infantil centrada nas memórias e tradições desse vulcão humano que é o povo brasileiro. Entrar neste pequeno livro é caminhar por entre alegretes de um jardim encantado que a cada rincão nos revela surpresas e nos permite saborear o perfume de memórias profundas que calam na alma de quem alguma vez foi criança e teve a liberdade de saltar por esses quintais adentro, caminhou ao sabor do vento, foi dono de ruas e becos, pulou nos charcos, não teve medo da corrente de rios nem de marés… e adormeceu feliz a ouvir uma “estória” de encantar inscrita há séculos no repertório da “pedagogia das amas”.

Logo à entrada deste jardim deparamos com um recanto onde se garante (invocando diversos estudiosos da questão, como Bettelheim, Winnicott, Cascudo) que Brincar é uma atividade importante! Uma verdade que parece esquecida quando a norma, de há uns tempos para cá, é supostamente a de sobrecarregar as crianças com trabalhos escolares e agendas de mil atividades de “preparação” para a vida!...  Brincar é a forma de respirar das crianças ou seu oxigénio… impedidas de o fazer, não se desenvolvem, estiolam e morrem, pondo em causa o futuro da humanidade.

Esta é uma verdade natural, desde sempre vivida mais do que conceptualizada. Até porque a espécie humana antes de ser sapiens foi, certamente, ludens! Foi na prática lúdica que descobrimos os outros e demos sentido às coisas, num movimento dúplice, ao mesmo tempo de tomada de consciência de si mesmo e de enlace com os outros. O “resto” veio depois…

É então o momento de passarmos a outro canteiro deste quintal imaginário convertido, com mestria, num belo livro de iniciação à cultura e sabedoria populares, mormente ao folclore infantil e à “cultura de brincadeira” com ou sem raiz em terras brasileiras mas a que a migração humana, ao mesmo tempo que universalizou, deu também, um cunho particular e identitário. Aqui se descobre quanto, na identidade brasileira, corre do sangue e da cultura dos portugueses e da herança de seus avós celtas, romanos e árabes… E basta uma referência aos “Jogos infantis” de Peter Brughel para percebermos que « todo o mundo» (literalmente ) e desde há seculos, joga ao eixo, ao pião, à cabra cega, ao berlinde e a muito mais…  numa universalização a que só o coração pacífico e ingénuo das crianças saberia dar forma e lugar.

É, contudo e em grande medida, da identidade baiana e de Salvador que se fala, num discurso que alia erudição e “saber de experiência feito” em milhares de festas com crianças e respetivos professores e em que as canções de roda e os jogos e brincadeiras tradicionais assumiram destaque próprio numa pedagogia do otimismo, da solidariedade, da amizade, da alegria e da esperança. Um contraponto de peso a colocar no outro prato da balança que nos oferece a modernidade, para que se «equilibre o virtual com o real» e não se estiole na criança a capacidade de criar, correr, saltar… e de produzir coisas que rolam que mexem e têm vida, como diria Roland Barthes.

Mas às raízes do chão sul-americano reserva-se, neste quintal, lugar ao sol regenerador. Encontramo-lo em páginas que descrevem, como se de um filme se tratasse, o quotidiano das crianças índias, «meninos e meninas de olhinhos amendoados e negros, cabelos muito escuros, longos e lisos, corpinhos fortes e desenvolvidos, rostinhos redondos de maçãs salientes, acostumados a brincar, a observar o dia, a ver o sol e a lua nascer». E compreendemo-nos melhor a nós próprios, à medida que os entendemos melhor a eles: nas palavras deles que proferimos nós… nos jogos deles que jogamos nós… nas histórias deles que nos encantam e que também repetimos.

No segundo centenário da publicação dos Contos da Criança e do Lar dos Irmãos Grimm, é de rejubilar com o aparecimento de trabalhos como este que continuam, na esteira daqueles mestres, a faina de trazer à luz e de disponibilizar universalmente o que de mais belo e profundamente antropológico saiu das mãos, do coração e da mente dos seres humanos – os seus mitos e contos, os seus jogos e brinquedos, as suas músicas, canções e danças. Trata-se do melhor que podemos deixar aos vindouros… uma herança de emoções harmoniosas e belas, e uma garantia de que a compreensão e a paz universal são possíveis. Ou, nas palavras da própria Nairzinha: «devemos incentivar o aprendizado com o passado para invenção do futuro».

Enfim, termino estas palavras, regressando à interrogação e desafio criado pelo  título da obra -- Quintal… saudades ou utopia? -- invocando versos do Natal dos Simples cantado pelo saudoso Zeca (José Afonso):  desafiando-nos a ir  “por esses quintais adentro” a cantar as Janeiras, ele garante-nos que:

“Só se lembra dos caminhos velhos/ Quem tem saudades da terra” (…) 

“Só se lembra dos caminhos velhos /Quem anda à noite à ventura”.

… Ou seja, a saudade pode dar as mãos à utopia, para construir um Mundo Novo…

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