Prof. Pedro Jaime de Coelho Jr.

Bacharel em Administração pela UFBA e Mestre em Antropologia Social pela Unicamp

Recriação do Folclore e Construção de Uma Cultura da Paz

Folclore é repertório cultural (cantos, contos, danças, histórias) criado por um sujeito coletivo as classes populares e que se constituem na sua tradição. Essa tradição não deve ser pensada, entretanto, como algo estático, permanente, fixo. Ela deve ser vista como algo dinâmico, mutável, um processo, uma transformação constante. Afinal de contas, como aprendemos com nossos pais e avós: "Quem conta um conto, aumenta um ponto." Isso acontece porque o folclore não acontece em num vácuo social. Ele existe dentre de um contexto sócio histórico. Assim, as práticas culturais que associamos ao folclore são constantemente recriadas, reelaboradas, readaptadas às novas formas assumidas pela sociedade.

O importante trabalho vem sendo desenvolvido por Nairzinha parte dessa visão dinâmica do folclore, da cultura popular. O que ela propõe não é simplesmente um resgate das cantigas de rodas e das brincadeiras cantadas do folclore brasileiro. Ao fazer esse resgate, Nairzinha procura dar a essas cantigas e brincadeiras uma nova linguagem, ainda que mantenha sua estrutura básica em termos do conteúdo melódico, histórico, social, cultural e educacional. Em seu trabalho, as cantigas de roda e brincadeiras cantadas são reinventadas em arranjos de samba, reggae, rap, enfim, dos ritmos que fazem parte da cultura infanto-juvenil. Contemporânea. No ano em que a UNESCO, designada agência-chefe da ONU em 2002, proclamou como Ano das Nações Unidas para o Patrimônio Cultural, as adaptações de Nairzinha prestam uma significativa contribuição para que as nossas crianças possam se reapropriar das suas tradições.

É importante lembrar também o caráter da pesquisa histórica que Nairzinha vem desenvolvendo, levando em conta a pluralidade formadora da cultura brasileira. É possível identificar no trabalho da artista a presença das culturas indígena, portuguesa e africana. Dessa forma, o trabalho de Nair funciona como um jogo de espelhos que nos coloca diante da nossa identidade e quem sabe assumirmos uma brasilidade multicultural, tão branca quanto índia e negra.

O trabalho de Nairzinha assume também uma grande importância no contexto desse início de século, com o s novos velhos desafios que ele nos coloca. Não é mais possível adiar o enfrentamento do nosso principal problema social, a exclusão. Já faz muito tempo que vivemos num Brasil dividido entre ricos e pobres. Desde os anos 70, a expressão Belíndia tem sido utilizada para representar a injustiça social e a segregação que marcam a nação. Segunda essa imagem, estamos divididos entre aqueles que vivem a nossa face moderna, a Bélgica e os outros que conformam o nosso lado periférico, a Índia.

Ainda que muitos indicadores revelem que temos buscado enfrentar esse quadro, há ainda muito por ser feito para diminuir o fosso que separa os dois Brasis. Quanto a isso, plena Década Internacional da Promoção da Cultura de Paz e Não Violência em Benefício das Crianças do Mundo, da UNESCO, o trabalho de Nairzinha presta mais uma contribuição significativa para a construção desta cultura da paz, na medida em que possibilita a criança de um canal de comunicação entre crianças do morro e do asfalto. Um encontro onde os objetos envolvidos não são canivetes, facas ou armas de fogo, mas sim os brinquedos de roda reciclados; onde as palavras ditas não estão associadas à violência, à integração, à cumplicidade e à solidariedade. Uma paz experimentada no dar as mãos e brincar justas nessa ciranda. Ciranda de cantigas, ciranda pela vida. Quem sabe assim, brincando e cantado, possamos construir um novo Brasil.

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